Médicos que cuidam de ex-obesos notam mudanças de comportamento após emagrecimento
Camila Neumam e Cláudia Pinho, do R7
Arquivo Pessoal
A nutricionista Cibele Zalli (foto) engordou mais de 40kg durante a gravidez e chegou a 136 quilos
A nutricionista Cibele Regina Fornari Zalli, 43 anos, é divorciada. Em pleno século 21, essa condição não causa nenhum tipo de espanto na sociedade. O que faz de Cibele um caso a ser visto com mais atenção, é o fato de ela ter se separado do marido, com quem foi casada por 12 anos, depois de ter se submetido a uma cirurgia de redução de estômago, a cirurgia bariátrica.
Não
existem estudos, estatísticas ou pesquisas que comprovem que as pessoas se
divorciam mais quando emagrecem depois desse procedimento, mas esse movimento
está sendo percebido cada vez mais nos consultórios de médicos e psicológicos
que acompanham esses pacientes.
Para
Cibele, a separação foi uma consequência natural do processo pelo qual passou
após a operação que fez em 2001, quando chegou a pesar 136 quilos. Sua condição
de obesa começou durante a gestação.
-
Engordei 45 quilos durante a gravidez. Tive depressão, comi muito durante os
nove meses. E no período da amamentação, quando a maioria das mulheres
emagrece, ganhei mais 10 quilos.
Seis
lipos depois, hoje ela está com 75 quilos e feliz da vida. Mas se lembra com
amargura dos tempos em que sofria com seu peso.
- O gordo
quer ser aceito por todos, entãose sujeita a todo tipo de situação. Ficamos
sem personalidade. A partir do momento que emagrecemos, a autoestima aumenta e
começamos a ter ideias. Daí, surgem os conflitos. Mudei e passei a enxergar meu
marido de outra maneira.
Em muitos
casos, a baixa autoestima faz com que os obesos se sintam incapazes de receber
afeto e, geralmente, a sexualidade é afetada. Cibele é um exemplo disso.
- Me
achava feia. Quem transaria comigo, senão meu marido?
Ao emagrecer,
ela começou a usar roupas mais justas e a se sentir mais elegante, e passou a
notar olhares de admiração de outras pessoas.
- Percebi
que eu existia. E quando isso aconteceu, vi o quanto havia me omitido.
“A mulher obesa é pouco respeitada”
Para Thomas
Szegö, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica
(SBCBM), esse tipo de situação é bastante comum. - Isso ocorre porque a mulher
obesa é pouco respeitada na sociedade e em casa. Ela própria não se respeita.
Sua autoestima é baixíssima. Quando ela emagrece, passa a exigir esse respeito,
principalmente por parte do parceiro.
Uma outra
razão para o fim de um relacionamento é o ciúme. É comum a mulher se esconder
em roupas largas, escuras, o que deixa o marido em uma situação muito
confortável e segura. Quando a parceira emagrece, passa a usar roupas mais
justas, o corpo fica mais evidente e o homem não consegue controlar o
ciúme.
Esse tipo
de reviravolta no comportamento pode acontecer entre os homens também, mas como
o índice de cirurgias é maior entre as mulheres, fica mais evidente entre elas. Das 30 mil cirurgias realizadas no ano passado, 80%
dos pacientes eram mulheres. Segundo o Ministério da Saúde, existem cerca de
dois milhões de pessoas com obesidade mórbida no Brasil.
Mas ao
contrário dos casos em que os pacientes desenvolvem comportamentos negativos,
como transferir sua compulsão para o álcool, os jogos ou às compras, o fim do
casamento pode ser visto como algo positivo.
É como se
ao emagrecer, a mulher tomasse coragem de resolver pôr fim a uma relação há
muito tempo desgastada. Para Szego, “isso não pode ser encarado como algo ruim.
A mulher está tentando recuperar o respeito”.
Foi o que
aconteceu com a cabeleireira Paula Nóbrega, 37 anos. Há seis anos, ela pesava
123 quilos e tinha um casamento infeliz. Mãe de três filhos, Paula conta que
seu marido não era uma pessoa muito amável, trabalhava demais e estava sempre
ausente.
- Meu
casamento não estava bem, mas eu não sabia. Sofria muito por ser gorda, pela
falta de atenção do meu marido. Passei a sentir dores pelo corpo e os médicos,
depois de me virarem pelo avesso, disseram que eram de fundo psicológico.
Com a
cirurgia, Paula mudou de vida. Perdeu 56 quilos e nunca mais sentiu as dores do
corpo e da alma. Dois anos depois, ela decidiu se separar do marido.
- Quando
eu emagreci, passei a me sentir bem com o meu corpo. Tive forças para dar uma
basta naquele casamento que tanto me incomodava. Hoje sou outra pessoa,
trabalho e sou feliz.
Paula
encontrou um novo amor e há um ano está noiva, com o casamento marcado para
novembro.
Cirurgia melhora saúde e autoestima
Segundo
Artur Garrido, um dos pioneiros da cirurgia bariátrica no Brasil, e
proprietário da Clínica Garrido, “as pessoas ganham autoestima, melhoram a
saúde física, a adaptação social e deixam de aceitar determinados
comportamentos antigos. É comum até mudarem de emprego. Mudam seus padrões de
vida e, não raro, acabam se separando”.
Já para o
psiquiatra Adriano Segal, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da
Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), não é possível afirmar que todas as
separações entre os ex-obesos sejam causadas pela cirurgia.
- É uma
população que muitas vezes já apresenta algum tipo de distúrbio psiquiátrico e
quando tiramos o obeso da antiga realidade, tiramos o seu equilíbrio. Mas em
alguns casos, isso pode até melhorar o casamento.
De
qualquer forma, a mudança na vida desses pacientes é imensa. Daí a importância
do acompanhamento multidisciplinar antes, durante e depois da cirurgia. Até
para evitar decisões precipitadas.
Segundo a
psicóloga Marlene Monteiro, do Grupo de Cirurgia Bariátrica e Metabólica da
Clínica Cirúrgica do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas de São Paulo,
logo após a cirurgia, os pacientes passam por um momento de extrema
euforia.
- Eles
acreditam que podem dar conta do mundo. Muitos mudam de emprego, de parceiro,
compram quantidades enormes de roupas, adiam casamento e se separam. Há uma
modificação de comportamento. Uns para o bem e outros para o mal.
Para
Szegö, a função dos profissionais envolvidos no processo da cirurgia é prever
esse tipo de situação.
- Sempre
pedimos ao cônjuge que acompanhe o paciente nas consultas. Se percebemos que a
separação é algo que pode acontecer com eles, orientamos para que procurem
ajuda terapêutica depois.
Fonte: Portal R7 Notícias














